10.07.2006

As alianças surrealistas da política brasileira

Por Ruy Fabiano


"Uma farta amostra do non sense da política brasileira, seu descompromisso com a coerência programática e com o eleitor, está sendo dada neste segundo turno. Vejamos, por exemplo, o Rio de Janeiro, um dos estados mais politizados do país.

Lá, Lula, do PT, está sendo apoiado pelo candidato do PMDB ao governo estadual, Sérgio Cabral, cuja candidatura é patrocinada pelo ex-governador Garotinho, que, no entanto, apóia Geraldo Alckmin, opositor de Lula na disputa presidencial.

Temos então a seguinte equação: Cabral, que elogia Garotinho, vota em Lula, que execra Garotinho, que por sua vez chama a Lula de corrupto e profanador da ética. Já o candidato derrotado do PT ao governo fluminense, Vladimir Palmeira, compartilha com Garotinho – seu arquiinimigo, a quem distribui os adjetivos mais pejorativos que encontra – o apoio a Cabral, mas na eleição federal vai para outro palanque. Vladimir é Lula; Garotinho já foi, deixou de ser e nada impede que volte a sê-lo. A esquerda diz que ele é de direita, a direita que é de esquerda e o centro o chuta para córner.

Garotinho é evangélico como o senador e bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. Rezam pela mesmo Bíblia e se empenham, lado a lado, a aumentar a bancada evangélica nas casas legislativas de todo o país. Mas Crivella está com Lula e Garotinho com Alckmin. Convicções distintas ou, muito pelo contrário, uma maneira esperta de estar sempre ao lado do Poder? O que ganha traz para perto o que perde.
No Maranhão, o quadro é um pouco mais esquisito. A candidata a governadora, Roseana Sarney, apóia Lula, muito embora seu partido, o PFL, integre a coligação do candidato oposto, Geraldo Alckmin. Esse apoio a Lula provocou protestos do PT local, que apóia o opositor de Roseana no segundo turno, Jackson Lago, do PDT. Lula, que será votado dos dois lados, diz a ambos que estão certos, desde que, claro, ambos se disponham a elegê-lo.

Na Bahia, o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Jutahy Magalhães Junior, diz que votou no PT para governador, porque prefere fortalecer indiretamente Lula que apoiar o candidato que lhe fez oposição no plano estadual, o atual governador Paulo Souto, do PFL (partido coligado ao seu no plano federal), apadrinhado por Antonio Carlos Magalhães.
Este, por sua vez, personificou nesta eleição o anti-Lulismo na Bahia, muito embora, na eleição passada, em 2002, tenha sido inversamente um dos baluartes da vitória do candidato petista contra o tucano José Serra. Em síntese, na eleição passada, Lula era para ACM o creme do creme; nesta, é o crime do crime.

Já Jutahy, que passou quatro anos execrando o PT na Câmara dos Deputados, liderando a oposição, confessa agora que votou exatamente no PT. O eleitor baiano – e o brasileiro e o de qualquer outro lugar - não deve estar entendendo nada.

Como se não bastasse, o presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati, fez campanha em seu estado, o Ceará, contra imaginem quem? Exatamente: o candidato do PSDB e atual governador Lúcio Alcântara, por cuja eleição, há quatro anos, foi um dos responsáveis. Há quatro anos, Lúcio era o máximo para Tasso; hoje, é o mínimo.
Ao mesmo tempo em que pedia a seus correligionários nacionais que se mantivessem unidos em torno de Alckmin, sobretudo os que se mostravam pouco animados com a imagem de candidato-chuchu do ex-governador paulista, Tasso fortalecia a candidatura Lula colaborando na eleição de Cid Gomes para governador cearense – Cid, irmão de Ciro Gomes, ex-ministro de Lula e seu eleitor entusiástico, inimigo figadal dos tucanos (cujo partido Tasso preside) e da candidatura Alckmin.

É muito? Pois tem mais. Fernando Collor, apeado da Presidência da República em 1992 pelo PT, no primeiro impeachment da história brasileira, confessa que não apenas votou no candidato do PT, Lula, como para ele pediu votos e voltará a fazê-lo no segundo turno.

Lula, por sua vez, que o chamava de ladrão para baixo, retribuiu as loas recebidas. Disse que Collor já pagou por seus erros e agora poderá fazer “coisas excepcionais” no Senado. Não disse que coisas são essas. A troca de gentilezas entre ambos já configura, em si, uma situação excepcional, que dispensa comentários.

Tudo isso mostra a necessidade inadiável de uma reforma política no Brasil. Os partidos não expressam programas, idéias ou ideologias. Não têm compromissos, a não ser com eles mesmos. Expressam meramente interesses e circunstâncias. É claro que interesses e circunstâncias sempre hão de estar presentes e influir na política, aqui e em qualquer parte. Mas há limites, que têm sido largamente transpostos.
Ao beijar a mão de Jader Barbalho (PMDB-PA) e ao reverenciar Newton Cardoso (PMDB-MG), personagens cuja prisão há não muito tempo pedia, Lula disse estar dando uma aula de sociologia política.

Com certeza. Só que o capítulo dessa aula amolda-se à rubrica de “anomalias da política” - a mesma que, no início do século passado, levou o escritor Euclides da Cunha, desencantado com a República que ajudara a propagar, a classificar o processo eleitoral brasileiro de “mazorcas periódicas que a lei marca, denominando-as ‘eleições’, eufemismo que é entre nós o mais vivo traço das ousadias da linguagem”. "

De lá para cá, o que mudou?

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